Retalhos de um Impostor
sábado, 1 de setembro de 2012
Alma Lenta (Porque tudo o que é de verdade sofre)
Elienai Jr.
Descubro tardiamente que minha alma é lenta. Meus pensamentos chegam sempre primeiro e organizam a cena, parece que dá para continuar sem muitos prejuízos. Meus sentimentos, também. No meio da confusão, sinto-me sempre forte, lúcido. Minha tristeza e desilusões são tímidas sempre. Depois de tudo fico achando que sou melhor do que imaginava. Que resisti incólume.
Mas então chega a alma. Bem depois de tudo. Com a cara indolente de quem deixa para depois. Sua lentidão me irrita. Dá vontade de sacudi-la e dizer: por que você nunca vem junto comigo? No entanto, lenta e inclemente, traz todas as minhas verdades. Toda a minha estupidez. Ela parece ter a missão de não deixar que minha história durma inerte.
Depois de tudo, vem continuar as conversas. Do dia anterior, dos enfrentamentos adiados. Das agressões arquivadas como desimportantes. Das decisões que, diferentes, a tudo poderiam sempre mudar. Das evidências apontadas, mas desconsideradas. Dos medos silenciados por desejos mais fortes.
Habilmente, minha alma, ressoa o barulho de meses atrás, das ofensas ou apenas insinuações. Estas, sempre mais devastadoras. Quem insinua encapsula nas reticências o pior veneno e por isso destrói por mais tempo e com mais dor. A alma se encarrega de tirar das cápsulas da memória antiga o veneno que até então não havia me feito tão mal. Vem exigir de mim que diga o que não disse. Não admite as poucas e atrapalhadas falas, implacável, pune-me. Vem lembrar-me os desencantos. Vem arder meu peito com tudo o que já era. Vem sussurrar minhas impotências. Vem dizer-me que sou menos.
Chega sempre depois e muito deprimida. Vem chorar quando tudo já pede para agir. Vem me mandar parar quando já não posso mais ficar. Vem cobrar de mim que deixe de crer naquilo em que não creio mais. Vem gorda e pesada. Doem o pescoço e as pernas. Doem os ossos e os olhos. Doem as lágrimas nas pálpebras. Dói viver.
Alguém pode xingá-la acusando-a de ressentida. Injustiça. Ela é lenta porque nossa pressa é uma mentira. Minha lenta alma vem dizer que não foram inertes as palavras que ouvi. Porque tudo o que é de verdade sofre. É ela que me impõe uma sentença, viver transforma. A minha alma é a minha condenação a jamais viver à toa.
Se não doesse tanto, faria um elogio a minha alma: você é mais linda verdade que habita em mim, graças a você minha vida é grave.
Se a dor que me faz sentir não fosse tão real e se, neste exato momento, não estivesse chorando, diria com uma ponta de esperança: não sei mais quem sou e quais os dias que me esperam. Sei, tão somente, que sou outro.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
O [re]início
O sol rastejou por debaixo da porta, riscou uma linha de luz pelo assoalho para formar um ponto brilhante na parede tosca no lado direito da cama. Com o quarto iluminado, ele resmungou a desdita de ter que se levantar. Sentou-se, procurando acompanhar o rastilho que se acendeu no quarto e começou a falar sozinho. “Que dia é hoje? Onde estou? Que lugar é este?”.
Sem pressa, estincando os braços para o alto, em um esforço para alongar os músculos retesados, ele caminhou até o banheiro, levantou a tampa do vaso e notou que havia urinado pela madrugada; um cheiro azedo subiu e lhe enauseou. “Que coisa, não me lembro de ter feito xixi!”. Quando ouviu o barulho da micção, sentiu prazer de aliviar a bexiga. “Estranho, eu não lembrava que era tão bom vir aqui de manhã”.
Terminou, espremeu o último pingo e se voltou para lavar as mãos. Tomou um susto. O coração dele disparou. “Quem sou eu?”, falou alto, como se brigasse com a figura que surgiu dentro do espelho.
Vestiu-se. De repente, já estava na calçada. O cenário lhe pareceu estranho. Sem conseguir reconhecer a vizinhança, não sabia para que lado se virar. “Esquerda ou direita”? Olhou as mãos e não conseguiu distinguir uma da outra. “Não sei quem sou, como vou saber que lado seguir?”. Um pânico súbito se espalhou pelo corpo como um arrepio macabro. “Estou ficando louco”, falou em voz alta.
Um carro parou bruscamente na sua frente. Quando o vidro baixou lentamente, apareceu um rosto feminino ainda mais apavorado que o do homem que ele vira no espelho há alguns momentos. “O senhor poderia me ajudar?”, ela implorava como uma náufraga pedindo uma bóia. “Estou perdida, preciso saber que dia é hoje, quem eu sou, onde estou e para onde vou”.
Ele tentou cadenciar a respiração, mas não conseguiu; o medo era maior do que a capacidade de controlá-lo. “Também estou perdido”, respondeu como uma criança acuada. A mulher não deixou que ele encaixasse a próxima frase. “Acabei de ouvir no rádio que durante a noite, uma estranha amnésia se alastrou como epidemia”. Ninguém mais sabe o nome, as pessoas vagueiam pela cidade sem rumo, sem norte”.
“E por que a senhora acreditou que eu poderia ajudar?”, ele indagou vagarosamente. “Eu não tinha nenhuma expectativa em relação ao senhor; parei aqui na frente por acaso. Simplesmente encostei o carro e o senhor foi a primeira pessoa que vi quando ouvi a notícia do apagão da memória coletiva”.
Ele abriu a porta do carro, estendeu a mão como faziam os cavalheiros ao cortejarem as damas medievais e a senhora saiu do carro. “Venha comigo”, ele pediu.
De mãos dadas, os dois dobraram a esquina. E se perderam. Ele jamais acertou o caminho de volta para casa; ela nunca mais se lembrou onde havia deixado o carro. Junto com o mundo, os dois perderam toda memória.
Ele e a nova amiga se viram obrigados a caminhar, caminhar; agora, sempre para frente. Quando estavam muito longe os dois sentiram necessidade de se darem nomes. “De hoje em diante você vai se chamar Adão”. E você será Eva. E os dois começaram tudo de novo.
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Para não viver em vão é preciso...
Para não viver em vão é preciso oscilar entre as
margens do bem e do mal, do ódio e do amor, da delicadeza e da
estupidez. Por algum motivo, a sabedoria milenar acertou: a virtude
pertence aos moderados. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.
Para não viver em vão é preciso flutuar com leveza. Se necessário, encher os pulmões de nitrogênio e acompanhar o voo dos balões. E se o desejar as altura for inevitável, não deixar que o fascínio das nuvens roube o acocorar-se ao lado de quem está agrilhoado à crueldade da vida.
Para não viver em vão é preciso levar-se a sério. Mas não com tanta gravidade. Alguns, impertinentes, deixam a impressão de que a virtude é incômoda – como uma mala sem alça. Tem hora que é bom viver sem propósito, ao sabor dos ventos. Por que não celebrar a improdutividade? Por que não aplaudir as cigarras? Seriam as formigas, que seguem em fila sem notar que obedecem a rainha, o melhor exemplo?
Para não viver em vão é preciso vez por outra desentrevar a espiritualidade de protocolos solenes. O cerimonialismo torna a fé um assunto para gente sisuda. Que alívio considerar Deus “um cara muito legal”, compreensivo, longânimo e que não mete medo. Que tal ensinar que Deus gosta de tornar qualquer um íntimo seu?
Para não viver em vão é preciso evitar varrer a inveja para debaixo dos tapetes do cinismo, assumir-se sem afetação, procurar o próprio caminho; e ter coragem de cantar no banheiro.
Para não viver em vão é preciso acordar tarde, comer chocolate sem culpa, presentear perfume caríssimo, sentar para almoçar sem hora para acabar, desligar o telefone celular, conversar um monte de besteira, rir à solta e ler romance.
Para não viver em vão é preciso acompanhar algum esporte, aplaudir trapezistas, sofrer com equilibristas, vibrar com contorcionistas, crer em mágicos e rir de palhaço; claro, gostar de circo.
Para não viver em vão é preciso ladear aquele que se desgasta pela justiça e reverenciar quem não se deixou entrevar pelo narcisismo; não confundir solidariedade com comiseração.
Para não viver em vão é preciso fazer da prece um compromisso, das convicções uma porta para o diálogo e da fé um convite para encarnar o divino.
Para não viver em vão é preciso fazer do instante fugidio um aceno de eternidade, da liberdade um compromisso com o próximo e da discordância uma oportunidade para crescer.
Para não viver em vão é preciso coragem para pedir perdão.
Ricardo Gondim
Soli Deo Gloria
Para não viver em vão é preciso flutuar com leveza. Se necessário, encher os pulmões de nitrogênio e acompanhar o voo dos balões. E se o desejar as altura for inevitável, não deixar que o fascínio das nuvens roube o acocorar-se ao lado de quem está agrilhoado à crueldade da vida.
Para não viver em vão é preciso levar-se a sério. Mas não com tanta gravidade. Alguns, impertinentes, deixam a impressão de que a virtude é incômoda – como uma mala sem alça. Tem hora que é bom viver sem propósito, ao sabor dos ventos. Por que não celebrar a improdutividade? Por que não aplaudir as cigarras? Seriam as formigas, que seguem em fila sem notar que obedecem a rainha, o melhor exemplo?
Para não viver em vão é preciso vez por outra desentrevar a espiritualidade de protocolos solenes. O cerimonialismo torna a fé um assunto para gente sisuda. Que alívio considerar Deus “um cara muito legal”, compreensivo, longânimo e que não mete medo. Que tal ensinar que Deus gosta de tornar qualquer um íntimo seu?
Para não viver em vão é preciso evitar varrer a inveja para debaixo dos tapetes do cinismo, assumir-se sem afetação, procurar o próprio caminho; e ter coragem de cantar no banheiro.
Para não viver em vão é preciso acordar tarde, comer chocolate sem culpa, presentear perfume caríssimo, sentar para almoçar sem hora para acabar, desligar o telefone celular, conversar um monte de besteira, rir à solta e ler romance.
Para não viver em vão é preciso acompanhar algum esporte, aplaudir trapezistas, sofrer com equilibristas, vibrar com contorcionistas, crer em mágicos e rir de palhaço; claro, gostar de circo.
Para não viver em vão é preciso ladear aquele que se desgasta pela justiça e reverenciar quem não se deixou entrevar pelo narcisismo; não confundir solidariedade com comiseração.
Para não viver em vão é preciso fazer da prece um compromisso, das convicções uma porta para o diálogo e da fé um convite para encarnar o divino.
Para não viver em vão é preciso fazer do instante fugidio um aceno de eternidade, da liberdade um compromisso com o próximo e da discordância uma oportunidade para crescer.
Para não viver em vão é preciso coragem para pedir perdão.
Ricardo Gondim
Soli Deo Gloria
quarta-feira, 6 de julho de 2011
quarta-feira, 8 de junho de 2011
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